Urda Alice Klueger
... e ele voou como um passarinho
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Hoje vou pedir a vocês que me acompanhem num pequeno raciocínio.
Vamos fazer de conta que nós estamos aqui, no nosso país, no nosso
estado, vivendo a nossa vida de cada dia, com os nossos governantes,
os nossos problemas e as nossas coisas boas. Cada um de nós têm mais
ou menos a vida que tem de verdade hoje – só que no nosso subsolo
existe uma riqueza danada, talvez ouro, talvez água, talvez ...
petróleo!!!
Daí alguém lá de longe, muito longe, diz assim: “Vou lá agora invadir
aquele país que tem toda aquela riqueza no subsolo! Estou me lixando
se o resto do mundo aprova ou não. Eu tenho armas poderosíssimas –
ninguém resiste a elas!”
E esse alguém vem, e chega explodindo tudo o que está pela frente com
o que de mais moderno e mortífero existe em matéria de tanques,
aviões, mísseis, bombas ... o que faríamos nós? Numa situação assim,
não há o que fazer – o jeito é deixar o inimigo entrar, fazer de conta
que está tudo bem, engolir o orgulho. E aí estaríamos vivendo num país
invadido, com soldados de pesadas botas andando pelas nossas ruas e
arrombando nossos casas à menor suspeita de resistência, e matando
pessoas a tiros por qualquer dá-cá-aquela-palha, e diariamente
teríamos que engolir um monte de desaforos e perigos.
Diga-me a verdade: você ficaria indiferente a uma situação assim? Você
deixaria o seu país pentacampeão de futebol e com muitas e muitas
outras coisas amadas ser simplesmente esmagado sob a bota do invasor?
Uma ova que deixaria! Se tal tivesse acontecido para nós, hoje
estaríamos fazendo atos de terrorismo contra o invasor, exatamente
igual ao que o povo do Iraque está fazendo. E o invasor acabaria
sabendo que não tinha acabado guerra nenhuma, que a guerra estava
apenas começando.
Para situações-limite assim como a do Iraque, havia um homem no mundo
que era capaz de ir lá e ajeitar as coisas, fazer alianças, fazer as
conversas necessárias, fazer com que, em algum momento, a muito custo,
todos se sentassem e fumassem o cachimbo da paz. Por sorte nossa, tal
homem nascera aqui na abençoada Terra de Santa Cruz. Sérgio Vieira de
Mello era um brinde com o qual o Brasil fora agaloado há 55 anos
atrás, era um dos mais ilustres brasileiros que vivia uma vida
direcionada à Paz. Quando ninguém dava jeito, a ONU o chamava – e ele
ia lá e enfrentava os maiores perigos e as mais perigosas facções, e
acabava conseguindo o que ninguém conseguia. Um amigo dele disse na
televisão que a ele não bastava ser um diplomata que defendia o Brasil
– ele sempre queria defender o mundo! Eu tinha passado a prestar
atenção nele desde a Guerra do Kosovo – e depois fiquei muito próxima
dele em Díli, quando ele “costurou” a paz no nosso irmãozinho mais
recente, o pequeno Timor-Leste, oitavo país de língua portuguesa, que
agora, por causa da interferência dele, já completou um ano de idade.
Em Timor-Leste Sérgio Vieira de Mello enfrentou o pior dos massacres e
um processo de independência tumultuadíssimo – e ainda teve tempo de
se apaixonar! De Díli ele escreveu a um amigo sobre essa sua paixão
por uma moça argentina – a televisão mostrou ontem. Batia um coração
enorme no peito daquele brasileiro dos mais ilustres, onde cabia toda
a humanidade e ainda o amor pessoal. É um orgulho ter um compatriota
assim!
E então, alguém tinha que ir para o Iraque tentar “alinhavar” algum
tipo de paz. Claro que o homem era ele. Foi para lá chefiando a missão
da ONU. E deu no que deu. Eu imagino as suas poucas horas de dor sob
aqueles escombros, que devem ter sido enormes horas, para ele – e
depois sua partida para o céu, como um passarinho! E não consigo nem
censurar aos que fizeram o atentado “terrorista” – eles estão fazendo
exatamente o que faríamos se a nossa terra tivesse sido invadida do
mesmo jeito.
O que me dói mais é termos perdido um brasileiro de tal quilate,
alguém insubstituível. Era alguém tão especial que não há outra forma
de imaginá-lo a ir-se: ele voou para o céu como um passarinho. Boa
viagem, Sérgio Vieira de Mello! Aqui, choro.
(28 de agosto/2003)
CooJornal no 329
Urda Alice Klueger
historiadora, escritora
Membro da Academia de Letras de Santa Catarina
Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina
Blumenau
urda@flynet.com.br