28/08/2003
Número - 329

- A índia da Guatemala
- A minha primeira árvore
- Alegrias ímpares
- As velhas Páscoas
- Esse velho companheiro
- Nasceu!!!
- Nosotros americanos
- Nossa Majestade, o Gelo
- O alegre dia de finados
- O dia em que eu descobri que amava meu pai
- O jeitinho brasileiro
- O paraíso perdido
- O portão do pasto do Tio Júlio
- O tapa na cara
- Oliveiras
- Onde está o calor humano?
- Os bastidores da Oktoberfest
- Sambaquianos
- Se os animais se entendem...
- Um homem chamado Jorge Amado I
- Um homem chamado Jorge Amado II

     

Urda Alice Klueger

   

... e ele voou como um passarinho
 

Hoje vou pedir a vocês que me acompanhem num pequeno raciocínio.

Vamos fazer de conta que nós estamos aqui, no nosso país, no nosso estado, vivendo a nossa vida de cada dia, com os nossos governantes, os nossos problemas e as nossas coisas boas. Cada um de nós têm mais ou menos a vida que tem de verdade hoje – só que no nosso subsolo existe uma riqueza danada, talvez ouro, talvez água, talvez ... petróleo!!!

Daí alguém lá de longe, muito longe, diz assim: “Vou lá agora invadir aquele país que tem toda aquela riqueza no subsolo! Estou me lixando se o resto do mundo aprova ou não. Eu tenho armas poderosíssimas – ninguém resiste a elas!”

E esse alguém vem, e chega explodindo tudo o que está pela frente com o que de mais moderno e mortífero existe em matéria de tanques, aviões, mísseis, bombas ... o que faríamos nós? Numa situação assim, não há o que fazer – o jeito é deixar o inimigo entrar, fazer de conta que está tudo bem, engolir o orgulho. E aí estaríamos vivendo num país invadido, com soldados de pesadas botas andando pelas nossas ruas e arrombando nossos casas à menor suspeita de resistência, e matando pessoas a tiros por qualquer dá-cá-aquela-palha, e diariamente teríamos que engolir um monte de desaforos e perigos.

Diga-me a verdade: você ficaria indiferente a uma situação assim? Você deixaria o seu país pentacampeão de futebol e com muitas e muitas outras coisas amadas ser simplesmente esmagado sob a bota do invasor? Uma ova que deixaria! Se tal tivesse acontecido para nós, hoje estaríamos fazendo atos de terrorismo contra o invasor, exatamente igual ao que o povo do Iraque está fazendo. E o invasor acabaria sabendo que não tinha acabado guerra nenhuma, que a guerra estava apenas começando.

Para situações-limite assim como a do Iraque, havia um homem no mundo que era capaz de ir lá e ajeitar as coisas, fazer alianças, fazer as conversas necessárias, fazer com que, em algum momento, a muito custo, todos se sentassem e fumassem o cachimbo da paz. Por sorte nossa, tal homem nascera aqui na abençoada Terra de Santa Cruz. Sérgio Vieira de Mello era um brinde com o qual o Brasil fora agaloado há 55 anos atrás, era um dos mais ilustres brasileiros que vivia uma vida direcionada à Paz. Quando ninguém dava jeito, a ONU o chamava – e ele ia lá e enfrentava os maiores perigos e as mais perigosas facções, e acabava conseguindo o que ninguém conseguia. Um amigo dele disse na televisão que a ele não bastava ser um diplomata que defendia o Brasil – ele sempre queria defender o mundo! Eu tinha passado a prestar atenção nele desde a Guerra do Kosovo – e depois fiquei muito próxima dele em Díli, quando ele “costurou” a paz no nosso irmãozinho mais recente, o pequeno Timor-Leste, oitavo país de língua portuguesa, que agora, por causa da interferência dele, já completou um ano de idade. Em Timor-Leste Sérgio Vieira de Mello enfrentou o pior dos massacres e um processo de independência tumultuadíssimo – e ainda teve tempo de se apaixonar! De Díli ele escreveu a um amigo sobre essa sua paixão por uma moça argentina – a televisão mostrou ontem. Batia um coração enorme no peito daquele brasileiro dos mais ilustres, onde cabia toda a humanidade e ainda o amor pessoal. É um orgulho ter um compatriota assim!
E então, alguém tinha que ir para o Iraque tentar “alinhavar” algum tipo de paz. Claro que o homem era ele. Foi para lá chefiando a missão da ONU. E deu no que deu. Eu imagino as suas poucas horas de dor sob aqueles escombros, que devem ter sido enormes horas, para ele – e depois sua partida para o céu, como um passarinho! E não consigo nem censurar aos que fizeram o atentado “terrorista” – eles estão fazendo exatamente o que faríamos se a nossa terra tivesse sido invadida do mesmo jeito.

O que me dói mais é termos perdido um brasileiro de tal quilate, alguém insubstituível. Era alguém tão especial que não há outra forma de imaginá-lo a ir-se: ele voou para o céu como um passarinho. Boa viagem, Sérgio Vieira de Mello! Aqui, choro.
 

(28 de agosto/2003)
CooJornal no 329


Urda Alice Klueger
historiadora, escritora 
Membro da Academia de Letras de Santa Catarina
Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina
Blumenau 
urda@flynet.com.br